O INTOLERÁVEL PESO DA FEIÚRA. SOBRE AS MULHERES E SEUS CORPOS.
JOANA DE VILHENA NOVAES

“Beleza é artigo de primeira necessidade”: este é o lema que perpassa os depoimentos das mulheres entrevistadas por Joana de Vilhena Novaes ao longo dos dez anos de sua pesquisa de campo. Nas academias de malhação, nas ante-salas das clínicas de cirurgia plástica, ou nos grupos de pacientes à espera de gastroplastia redutora, há o consenso: “só é feia quem quer”. E quem não quiser se enquadrar nos atuais cânones de beleza sofrerá o merecido castigo da rejeição e da exclusão.
Pois beleza e feiúra nada têm de “natural”. São vivenciadas em termos morais, e lembra a Autora que a feiúra era vista, pelos antigos gregos, como reveladora de defeitos de caráter. Na sociedade ocidental contemporânea, que se define pela busca narcisista do gozo imediato e pelo abandono dos valores religiosos, culpa e pecado emigraram para o terreno da modelagem do corpo.

O modelo de corpo feminino almejado pelas entrevistadas tem de ser, imperativamente, “seco, sarado, e definido”. Assim perde as curvas que, durante tanto tempo, foram valorizadas como apanágio das mulheres, e se aproxima de um ambíguo referencial andrógino. Mas essa “boa aparência” custa caro, em todos os sentidos, já que só poderá ser alcançada, em um círculo perverso, pela utilização das ferramentas que a sociedade de consumo põe à disposição dos seus súditos. E a indústria da beleza, nas academias e nas clínicas, incansavelmente se nutre do reforço dos padrões disciplinares de dominação e submissão, que a fábrica dos corpos perpetua.

Profa. Dra. Monique Augras – PUC-Rio


Orelha do livro

No decorrer da história das artes houve uma ruptura no conceito de um padrão único de estética. Vários artistas sofreram por esta mudança, que significou um redesenho do belo e ampliou as possibilidades de entendimento sobre a forma. Nas artes, a tirania da figura-fundo e do desenho em perspectiva linear foi enfrentada, não sem preço_ que o diga Van Gogh, permitindo para o mundo culto e erudito uma estética das possibilidades e da tendência ao infinito pela multidiversidade.

No entanto, nosso corpo, e em especial o corpo feminino, não experimentou esta ruptura estética. O texto de Joana de Vilhena Novaes nos fala desta tirania estética. Se numa viagem no tempo descobrimos que esta imposição estética sobre o corpo ocorreu em várias épocas, de diferentes maneiras, ela agravou-se no tempo de hoje.

Joana nos oferece uma dimensão trágica desta tirania sofisticada do contemporâneo. Porque temos a possibilidade de modificarmos o nosso corpo com o desenvolvimento de uma infinidade de tecnologias, que vão desde as tecnologias de educação física às cirurgias de correção, a manutenção de um corpo não adequado passou a ser considerada socialmente como um desvio de caráter e um ato de vontade.

A tirania estética atual transformou o corpo inadequado de outrora, que podia ser considerado no locus simbólico do sujeito vitimizado, para um outro lugar, onde o sujeito passou a ser responsabilizado por não estar com seu corpo adequado. A gravidade aumenta quando sabemos que no universo simbólico o padrão é etéreo e difícil de ser objetivado e mensurado. A perfeição idealizada encontra na realidade sempre imperfeições que, segundo a autora, obrigarão ao sujeito a submissão de uma bateria de esforço, alguns absolutamente insanos e cruéis, em busca de um modelo inalcançável.

Joana de Vilhena Novaes é uma crítica do comportamento contemporâneo e nos oferece um belo texto, permeado de uma ironia maravilhosa, que se oferece como um libelo da liberdade.

Prof. Dr. Ricardo Vieiralves de Castro
Reitor da Uerj
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social - UERJ



APRESENTAÇÃO

Profa. Dra. Ilana Strozenberg
Antropóloga
Profa. da Escola de Comunicação da UFRJ

Parte mais tangível da existência humana - carne e osso, fibras e líquidos - o corpo talvez seja também seu maior mistério. Sob a aparente obviedade com que se oferece à percepção dos sentidos - posso vê-lo, segurá-lo, sentir sua temperatura, seu cheiro, afagá-lo ou feri-lo de morte – se esconde a complexidade de seus múltiplos significados. A percepção dessa multiplicidade de corpos possíveis é um pressuposto central do trabalho de Joana de Vilhena Novaes. A partir de uma abordagem eminentemente interdisciplinar - embora sem nunca perder de vista a ênfase na perspectiva teórica e nos objetivos da Psicologia Clínica -, o corpo que lhe interessa compreender em sua pesquisa não é o que se reduz a uma realidade única, cujos contornos e limites seriam definidos por uma natureza humana universal, seja ela psíquica ou biológica. Em diálogo com a teoria antropológica, seu objeto de estudo é o corpo enquanto representação, suporte de símbolos culturalmente produzidos e historicamente contextualizados. Um corpo, portanto, que pertence indissociavelmente ao indivíduo e à sociedade.

Indagações sobre esse corpo atravessam toda a história do pensamento universal. Afinal, nas suas repostas estão contidos os parâmetros do que se considera ser a própria condição de humanidade. Ao abordar a relação das mulheres com seus corpos, o livro de Joana nos conduz, de fato, ao cerne dessas indagações. Ao denunciar a crueldade do estigma da feiúra, ela nos coloca face-a-face com a urgência de uma reflexão crítica sobre os parâmetros de humanidade de que estamos imbuídos. Na contemporaneidade globalizada, de um modo geral mas, em especial, nos contextos em que predominam os princípios da tradição ocidental e os valores da cultura do consumo.

É a partir de nosso corpo que agimos, que nos relacionamos com o mundo à nossa volta e conosco mesmos. Falar do corpo, portanto, é falar do sujeito. Falar da estética do corpo é falar de estética do sujeito e da sociedade. Uma estética que, como a análise de Joana não nos deixa esquecer, é eminentemente política, porque, em seu nome, se fazem escolhas, se tomam atitudes. Porque, a seu pretexto, se constroem laços de aliança, de admiração, de amizade e de afeto, mas também se justificam gestos de antagonismo, de discriminação e de exclusão. Os diferentes depoimentos colhidos na pesquisa nos transmitem uma mesma advertência: beleza e feiúra, hoje, quando atribuídos ao corpo de alguém, podem ser vividas como sentenças que decidem sobre o direito de ter ou não uma identidade humana plenamente reconhecida. Para muitos de nós - uma vez que, em alguma medida, todos somos essas mulheres – essa experiência se traduz como o direito de amar e ser amado. Como se forjou essa representação estetizante do corpo? Que características da sociedade e da cultura criaram as condições de sua produção e disseminação, até que se tornasse, como acontece atualmente, parte integrante das atitudes mentais e emocionais que pautam as relações dos indivíduos consigo mesmo e com os outros?

Dos primórdios da Revolução Industrial até algumas décadas atrás, a representação do corpo que predomina é a do corpo do trabalho. No indivíduo pensado primordialmente como mão de obra - mais ou menos especializada, não importa – as características mais evidentemente valorizadas estão atreladas à sua capacidade produtiva. Nesse contexto, o cumprimento das normas, associadas aos valores da ética do trabalho, é o parâmetro central a partir do qual se avaliam as existências individuais. O corpo do sujeito da produção é o corpo da disciplina: anônimo, substituível como uma peça na linha de montagem de estilo fordista, como o do personagem imortalizado por Charles Chaplin como o operário de “Tempos Modernos”. Dele, não se exige nem se espera que seja belo. Apenas submisso e saudável o suficiente para não comprometer sua produtividade. A beleza – seja nas manifestações simbólicas imateriais, como a literatura, a música, as artes em geral, ou nas suas formas mais palpáveis, investida em bens de consumo de luxo e no próprio corpo – é privilégio de poucos e não deveria ser almejada pela maioria.

Na contemporaneidade, ao contrário, o corpo idealizado é o corpo do consumo. Liberado da submissão à máquina produtiva que disciplinava seus desejos, no entanto, o sujeito é inserido nas engrenagens de um sistema de consumo que lhe impõe ter desejos. Desejos que não deverão ser nunca satisfeitos, pois é do desejar, sempre mais, sempre outra coisa, que esse sistema de consumo se alimenta. Já não se trata da máquina de produção que se alimentava de corpos, mas da lógica do consumo que alimenta sujeitos nunca saciados. Com isso, no lugar do indivíduo anônimo se instala o valor do indivíduo diferenciado, que se destaca dos outros, de imediato, pela sua aparência. Uma aparência da qual se assume ser a vitrine mais evidente e inequívoca do sujeito. Eis-nos em pleno domínio da ditadura da aparência.

A uma ética do trabalho se sucede, então, uma tirania estética do consumo. De privilégio de poucos, a beleza passa a ser necessidade de muitos. Não uma beleza qualquer, mas uma beleza construída segundo alguns padrões bem determinados, ditados pelo próprio mercado, que define o corpo da moda. Novas tecnologias, novos produtos, novas técnicas de modificação e controle corporal – que vão das oferecidas pelas academias de ginástica e institutos de beleza, às mais radicais, viabilizadas pela medicina cirúrgica – surgem a cada dia para que os indivíduos possam atender a essa exigência. Uma exigência estética que parece ser um passaporte privilegiado e, quem sabe até, exclusivo, para o prazer, o amor, enfim, a felicidade.

Nunca, em nenhum outro momento da vida social, o poder do olhar do outro sobre nosso corpo foi, a tal ponto, invasivo. Na sociedade contemporânea, a ditadura da aparência nos diz que o corpo sarado e definido - tido como belo - é também o sinal exterior de uma beleza interior, de uma mente saudável, de uma internalidade “bem resolvida”. Neste sentido, não é um exagero afirmar, como faz Joana, que essa é uma estética homóloga à que funda a crença nas classificações racistas, sobre as quais se justificaram e ainda se justificam tantas barbaridades na história da humanidade. Dizer que o gordo é feio, portanto dotado de características moralmente negativas, não é, afinal, em última instância, muito diferente de dizer que o negro, ou o não-ariano, são naturalmente inferiores.

Mas será a tirania da estética efetivamente mais cruel que a de outras formas de controle que a sociedade impõe aos corpos de seus indivíduos? Se, na perspectiva antropológica, não há como pensar a relação entre corpo e subjetividade fora da linguagem e dos códigos culturais que lhes dão significado, toda a expressão de subjetividade está, de algum modo, submetida às imposições e limites ditados pela sociedade. No próprio texto do livro, inúmeros exemplos de representações do corpo, do belo, da gordura, em outros contextos históricos e culturais, deixam isso bem claro para o leitor. Por que, então, a sociedade de consumo nos parece ser mais tirana que as demais?

Talvez, paradoxalmente, porque é a que apresenta maior potencial de manifestação de diferenças. Ao contrário do que muitos pensam, a diferença e a contradição não são uma manifestação de instabilidade ou crise social, mas um elemento constitutivo de toda e qualquer realidade social. Na medida em que pertencem à ordem da cultura, portanto, a um universo de convenções historicamente produzidas, e não à ordem das determinações da natureza, os códigos sociais trazem em si mesmos a possibilidade de sua transgressão. Por outro lado, se toda sociedade comporta algum grau de diferença – por isso mesmo todas elas possuem mecanismos de repressão, visando garantir a própria continuidade - a sociedade contemporânea é a que se caracteriza pelo maior grau de heterogeneidade. Ao contrário das sociedades tradicionais, que privilegiam a permanência e a conformidade às normas estabelecidas, punindo severamente tudo o que as ameaça, a sociedade de consumo - em que os valores do individualismo se manifestam de forma extremada - prega a diferenciação, a originalidade, a novidade. É, portanto, nessa sociedade que a imposição da norma gera, de forma mais intensa, a consciência da arbitrariedade da sua tirania e, conseqüentemente, o seu questionamento.

Mesmo reconhecendo que ser diferente é uma “obrigação”, uma imposição da lógica do consumo, será que as diferenças que se produzem remetem sempre ao mesmo? Será que todos os corpos, ou, mesmo, todos os corpos femininos produzidos pela nossa sociedade, são o mesmo corpo? Ou ainda, sob o ponto de vista dos parâmetros da estética, será o belo sempre o mesmo belo, e o feio sempre o mesmo feio, para o conjunto da sociedade?

Se derem margem a uma leitura pessimista, centrada na crítica à crueldade que consiste na escravização do corpo feminino a padrões de beleza inatingíveis, e na condenação da exclusão das mulheres estigmatizadas pela “acusação” de feiúra, as análises de Joana de Vilhena Novaes permitem também uma outra leitura, que se abre para a percepção de outras dimensões da experiência desse corpo. Quando, por exemplo, aponta para as diferenças entre as atitudes das mulheres que freqüentam academias de beleza, as das que fizeram cirurgia plástica e as das que se submeteram a cirurgias bariátricas. Apesar de todas consumirem (ou se deixar consumir por) práticas semelhantes e alegarem a busca da beleza como sua principal motivação, a relação com o corpo e o investimento estético parecem adquirir significados diversos para algumas delas. Nesse ponto, chama a atenção a ênfase dada à dimensão do prazer, muitas vezes presente na fala das mulheres entrevistadas. O prazer de ter controle sobre o próprio corpo, de poder ter instrumentos dos quais lançar mão para intervir na construção da própria imagem; o prazer de investir na melhoria da própria auto-estima. Não se pode desqualificar como ”alienada” a fala da mulher que descreve o momento pós-operatório como um “renascimento”.

Sem dúvida, a auto-estima terá sempre, como referência, a estima percebida no olhar do outro. Mas quem é esse outro? O fato de não ter uma só face confessável – aquela prevista pela norma -, mas, pelo contrário, poder estar explicitamente alocado em diferentes personagens - o marido, as outras mulheres, o amante, os amigos dos filhos, – não é desprezível do ponto de vista da experiência do sujeito, capaz de selecionar o olhar que privilegia.

Ainda uma observação da autora parece corroborar a pertinência dessa outra leitura: a representação da maternidade como perigosa para o corpo que se quer sedutor. No contexto da tradição judaico-cristã, em que o papel de mãe é separado do papel de amante e o sexo que procria não é o mesmo que dá prazer, a fala sobre esse temor e a narrativa dos esforços realizados para superar os “estragos” da gravidez podem ser ouvidos como uma busca de superaração dessa dicotomia. Um gesto de luta pela afirmação de uma individualidade plena da mulher; dona de si, de seu corpo, de seus múltiplos papéis.

Como afirma a própria autora, num momento de evidente empatia com essa luta:
“Não há como negar a dimensão do prazer que grande parte delas pode extrair de todos os sacrifícios vividos. Não há também como negar como parte de nossas entrevistadas pode agora participar de forma ativa e desejante da vida social que lhes era negada, muitas vezes por objetivas condições físicas.”

Para além de uma análise sensível e perspicaz dos sofrimentos causados pela vivência da feiúra, o livro de Joana de Vilhena Novaes parece trazer uma proposta de resistência. Cuja palavra de ordem poderia ser: contra uma estética da exclusão e do preconceito, por uma estética do compartilhamento e do prazer.